Por Luis Montenegro, Cybersecurity Lead da SeQure Quantum.

Na América Latina, os ataques de ransomware não são novidade. A região lidera há anos as estatísticas globais de incidentes de cibersegurança. O que se tornou cada vez mais evidente nos últimos meses é que o impacto desses ataques continua a expor uma lacuna crítica: muitas organizações reconhecem o risco, mas ainda não implementaram as medidas necessárias para absorvê-lo sem afetar sua operação.
Nesse cenário, a pergunta central já não é se uma organização será alvo de uma tentativa de intrusão, mas o que acontece quando essa tentativa se concretiza. A diferença entre uma crise controlada e uma paralisação total não está no ataque em si, mas nas decisões técnicas adotadas previamente.
Esse tipo de ataque segue um padrão relativamente claro. Os invasores buscam obter controle sobre informações críticas, como dados operacionais, pessoais ou estratégicos. Com isso, não apenas interrompem processos, como também criam uma pressão econômica e reputacional projetada para forçar decisões rápidas. No entanto, o sucesso real da extorsão não depende apenas do acesso inicial, mas do valor que essas informações mantêm após serem comprometidas.
Do ponto de vista técnico, existem dois pilares fundamentais para reduzir de forma significativa o impacto desse tipo de incidente, e eles devem ser abordados de maneira conjunta.
O primeiro é o uso efetivo de criptografia para proteger as informações, tanto em repouso quanto em trânsito. Quando os dados estão devidamente criptografados, um acesso não autorizado não se traduz automaticamente em exposição ou reutilização das informações. Os dados continuam existindo, mas tornam-se ilegíveis e, portanto, perdem seu valor como instrumento de extorsão. Nesses cenários, o pagamento de resgates deixa de ser uma variável relevante.
O segundo pilar é a gestão de backups confiáveis: cópias de segurança segregadas, verificadas periodicamente e com capacidade real de recuperação. Não basta ter backups, é essencial que estejam protegidos contra o mesmo evento que afeta o ambiente produtivo e que permitam a restauração da operação sem dependência do atacante. Implementar apenas uma dessas medidas cria um ponto único de falha que o ransomware sabe explorar.
A essa equação soma-se um fator frequentemente subestimado: o horizonte tecnológico da criptografia. Grande parte dos mecanismos que hoje protegem as informações foi projetada com base em pressupostos computacionais que estão mudando. Em 2024, o NIST formalizou os primeiros padrões de criptografia pós-quântica, incorporando algoritmos como ML-KEM para troca de chaves e ML-DSA para assinaturas digitais, desenvolvidos para resistir a capacidades de decifração que os sistemas atuais não conseguirão enfrentar.
Esse marco não responde a uma ameaça futura abstrata, mas à necessidade de proteger, desde já, informações que precisam permanecer confidenciais por anos. No contexto do ransomware, fortalecer a arquitetura com uma abordagem quantum-safe reduz estruturalmente o valor dos dados comprometidos e limita o impacto de ataques que buscam explorar informações hoje para extorquir amanhã.
Em cibersegurança, assumir que tentativas de intrusão ocorrerão não é alarmismo, é rigor técnico. A resiliência de uma organização não é medida pela ausência de ataques, mas por sua capacidade de continuar operando, proteger suas informações e manter o controle quando eles acontecem. Preparar-se para esse cenário deixou de ser uma opção estratégica; é um requisito básico de continuidade e confiança digital.